Purificação, transição e passagem
antes da
eternidade absoluta
Na fé
católica, o Purgatório não é um “castigo intermediário”,
nem um “inferno
temporário”, mas uma realidade necessária de purificação,
decorrente da
própria lógica da santidade divina e da condição humana.
A tese
aqui defendida é que:
Ressurreição,
juízo e purificação não podem ocorrer já dentro da eternidade
absoluta, Pois O
Reino dos Céus, como
Eternidade é uma dimensão imutável, atemporal e imaterial. Não
pode haver
transição ou processo na eternidade.
Logo, a
Ressurreição do ser Humano, seu Juízo e sua Purificação EXIGEM uma
fase
transitória, anterior à entrada definitiva no estado eterno,
e essa fase
corresponde ao Purgatório.
O fundamento dogmático do Purgatório
A Igreja Católica
ensina de modo definitivo que:
Existe a Comunhão dos
Santos onde vivos e mortos são unidos em oração à Deus. Todos passará pelo Juízo
Final e em maior ou menor grau necessitarão de uma Purificação
para a Presença de Deus na Eternidade Celeste. essa purificação ocorre
após a morte; ela é distinta do inferno
e do céu; Os que rejeitarem a Purificação ressuscitarão para a
eternidade sem a presença de Deus (inferno) e os que aceitarem a
purificação ressuscitarão para a eternidade na presença de Deus
(Céu). os fiéis podem ajudar
essas almas por orações e sufrágios.
Isso está
expresso: no Concílio de Florença (1439), no Concílio de Trento
(século 16), e
no Catecismo da Igreja Católica (nn. 1030 a 1032).
Textos
Bíblicos e Interpretações:
2
Macabeus 12:43-46: Este
livro, considerado canônico pela Igreja Católica relata Judas
Macabeu fazendo
uma coleta para oferecer sacrifícios pelos mortos, para que fossem
perdoados de
seus pecados. A prática de orar pelos mortos sugere a
possibilidade de
purificação após a morte.
Mateus
12:32: Jesus
diz: "Qualquer, porém, que disser contra o Espírito Santo, não lhe
será
perdoado, nem neste mundo, nem no mundo vindouro". A interpretação
católica deduz desta passagem que alguns pecados podem ser
perdoados no mundo
que há de vir, indicando um estado intermediário de purificação.
1
Coríntios 3:13-15: São
Paulo escreve sobre a obra de cada um sendo provada pelo fogo no
Dia do Juízo.
"Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal
será salvo,
todavia, como pelo fogo". A Igreja interpreta esse "fogo" como
um fogo purificador do purgatório.
Lucas
12:58-59: A
parábola do devedor que é entregue à prisão até pagar a última
dívida é
interpretada como uma figura do purgatório, um estado temporário
de expiação
para a puruficação total.
O dogma
afirma a existência do Purgatório, mas não define sua forma,
duração ou estrutura
temporal — deixando espaço para reflexão teológica legítima.
A lógica da purificação antes da
eternidade
A
eternidade, por definição, é: imutável, absoluta, sem sucessão,
sem processo ou
transição.
Ora, purificar
é um processo. Julgar é um ato relacional.Ressuscitar é uma
transição
ontológica.
Logo, é filosoficamente
incoerente imaginar que: processos, transições, mudanças de
estado, ocorram
dentro da eternidade propriamente dita.
Portanto,
ressurreição, juízo final e purificação devem ocorrer antes da
entrada
definitiva no estado eterno, numa condição intermediária.
Essa
condição é precisamente aquilo que a tradição chama de Purgatório.
O Purgatório como dimensão
espiritual, não como
lugar físico
A
teologia católica contemporânea é clara: o Purgatório não é um
lugar
material; não está “embaixo”, “em cima” ou “em algum ponto
do universo”; não
possui espaço físico.
Trata-se
de uma dimensão espiritual, onde a alma humana é a vida.
Cada célula
humana viva tem alma espiritual (anima).Não existe, nem pode
existir alma
humana sem corpo. Alma é a vida. Não existe vida sem um corpo.
A medida
que a vida nas trilhões de células que formam o corpo humano forem
desanimando
neste plano material,vão
animando um
corpo glorioso e ressuscitado no plano espiritual, no purgatório.
O conceito de tempo: nem cronos, nem
eternidade
Aqui
entra uma contribuição teológica profunda: o aevum (ou aevon).
O que é o aevum?
Na
tradição filosófico-teológica (Santo Tomás de Aquino):
cronos é tempo material,
sucessivo (nosso tempo); eternidade é o plano
espiritual, imaterial e atemporal. Aevum seria uma dimensão espiritual
intermediária com possibilidade de sucessão de atos espirituais.
Assim, o
Purgatório: não tem “dias” ou “anos”; o tempo não é tempo
material, mas permite
processos espirituais reais, como: purificação, tomada
plena de
consciência, encontro com a verdade do próprio ser, sem as
barreiras genéticas,
sociais, comportamentais, etc..
Ressurreição e juízo final no
contexto do
Purgatório
A tese
defendida por diversos teólogos é que: no fim do tempo material,
ocorre a
ressurreição universal, seguida do juízo final, e da purificação
última.
Tudo isso
não pode ocorrer já na eternidade consumada, mas num estado
de transição
escatológica, que coincide com o Purgatório em sua dimensão
final e
coletiva.
Nesse
momento: toda a humanidade ressuscitada, consciente,julgada na
verdade plena, purificada
de toda desordem residual, entra junta e definitivamente
na eternidade
celeste.
O Purgatório como expressão da
misericórdia divina
O
Purgatório não é uma “falha” da redenção, mas sua aplicação
perfeita.
Ele
existe porque: Deus é justo e nada impuro entra na sua presença;
Deus é
misericordioso. Sempre está pronto a acolher. Tantas parábolas
sobre o perdão
divino. Exemplo: Ovelha perdida, filho pródigo.
O ser
humano é imperfeito. Com exceção de Maria, toda a humanidade
necessita em maior
ou menor grau ser purificada.
Sem
Purgatório, restariam apenas duas opções: ou condenação injusta,
ou entrada no
Céu sem verdadeira transformação.
O
Purgatório resolve essa tensão.
Entrada definitiva na eternidade com
Cristo e Maria
Maria, imaculada conceição,
ressuscitou igual seu
filho Jesus, no plano material e depois foi assunta ao plano
espiritual.
Concluída
essa purificação: cessam todos os processos; não há mais
transição; não há mais
mudança.
Então,
toda a criação redimida: entra na eternidade absoluta, participa
da visão
beatífica, vive a comunhão plena com Deus.
Segundo a
fé católica: Jesus Cristo ressuscitado, Deus feito homem, é o
centro dessa
eternidade;
Conclusão
A tese de
que o Purgatório é: uma dimensão espiritual, sem espaço, com um
tempo próprio
(aevum), onde ocorrem purificação, juízo e transição,
É
coerente com o dogma católico, consistente filosoficamente,
compatível com a
Escritura, defendida por teólogos sérios e respeitosa dos limites
do mistério
A fé
católica ensina: nada de impuro entra na eternidade,
mas ninguém é purificado sem misericórdia.
O
Purgatório não diminui o Céu. Ele o torna possível.